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{"id":35291,"date":"2025-01-23T10:42:31","date_gmt":"2025-01-23T12:42:31","guid":{"rendered":"https:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/?p=35291"},"modified":"2025-01-23T10:42:31","modified_gmt":"2025-01-23T12:42:31","slug":"800-anos-do-cantico-das-criaturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/?p=35291","title":{"rendered":"800 anos do c\u00e2ntico das criaturas"},"content":{"rendered":"<p>Neste ano de 2025, comemoramos 800 anos dessa poesia revolucion\u00e1ria que apresentou \u00e0 hist\u00f3ria um novo paradigma n\u00e3o compreendido em sua \u00e9poca e que ainda traz desafios para a sociedade contempor\u00e2nea. Um paradigma baseado na integralidade do reconhecimento e do cuidado com todas as formas de vida: desde um inseto at\u00e9 mesmo a \u00e1gua, o sol, sem excluir os seres humanos marginalizados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma curiosidade sobre essa poesia: foi escrita na l\u00edngua vulgar da \u00e9poca, ou seja, no dialeto italiano, em contraste com o Latim que predominava como a express\u00e3o hegem\u00f4nica da cultura dominante. Essa poesia \u00e9 ainda hoje um legado lingu\u00edstico, social e ecol\u00f3gico, pois apresenta um paradigma integral, uma ode ou tratado \u00e0 grandiosidade e signific\u00e2ncia de cada forma e express\u00e3o de\u2026<br \/>\n[16:55, 20\/01\/2025] +55 24 98186-9372: Outra curiosidade \u00e9 que a pen\u00faltima estrofe, que exalta o perd\u00e3o e a paz, foi escrita somente em julho de 1226, na casa do bispo de Assis, para p\u00f4r fim a uma desaven\u00e7a hist\u00f3rica entre o bispo e o prefeito da cidade. Esses poucos versos bastaram para impedir a guerra civil. Ao acrescentar uma estrofe para mediar os conflitos, \u00e9 celebrada uma paz que viabiliza a vida do povo. Assim, a poesia \u00e9 um louvor aos que sustentam a paz. Mas n\u00e3o uma paz de bra\u00e7os cruzados, mas daquele que queria o fim das guerras.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 interessante destacar a escolha de Francisco para expressar uma percep\u00e7\u00e3o, sentimento e interpreta\u00e7\u00e3o da realidade, por meio da poesia. A arte \u00e9 sempre a forma mais potente de denunciar e anunciar um processo urgente na sociedade. Nesse caso, essa poesia apresenta de forma silenciosa um grito de cuidado e defesa por todas as formas de vida, que vivem num contexto de colapso. Francisco \u00e9 um artista, apresenta por vezes a\u00e7\u00f5es perform\u00e1ticas, porque usa da plasticidade para falar \u00e0 sociedade de forma sens\u00edvel, terna e firme. Ele, inclusive, criou tamb\u00e9m o pres\u00e9pio e tantas outras express\u00f5es criativas. \u00c9 um santo jogralesco e com esp\u00edrito po\u00e9tico, mergulhado na \u00e9tica do cuidado e na experi\u00eancia est\u00e9tica da realidade.<\/p>\n<p>Por isso, esse C\u00e2ntico \u00e9 um chamado para toda a humanidade e \u00e9 atemporal para o compromisso hist\u00f3rico e constru\u00e7\u00e3o do Bem Viver dos povos, no intuito de que os olhos turvos n\u00e3o desprezem a vida ferida dos injusti\u00e7ados, dos oprimidos e da M\u00e3e Terra, mas celebre a fraternidade universal. Francisco entende que n\u00e3o somente a voz dos humanos, mas tamb\u00e9m o grito e o suspiro da Terra clamam por sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essa poesia \u00e9 a mudan\u00e7a de paradigma de um ser humano que sonhava em dominar o mundo, mas que agora o sustenta em seu louvor, reivindicando que todas as formas de vida sejam respeitadas. Entoar\u00e1 esse C\u00e2ntico quem cuidar da Terra, quem trocar as palavras pelas a\u00e7\u00f5es, quem permitir que a morte seja uma irm\u00e3, e n\u00e3o o algoz de quem tem o poder do mercado e das armas.<\/p>\n<p>Hoje, vivendo nesse paradigma capitalista de ac\u00famulo no qual vivemos, que financeiriza o sentido da vida, em que a explora\u00e7\u00e3o \u00e9 governada para o lucro e o dinheiro, que coloca \u00e0 margem do sistema social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico, milhares de invisibilizados, famintos, sem-terra, sem-teto, sem-renda, os \u201csem-dignidade\u201d, nesse ciclo de explora\u00e7\u00e3o e marginaliza\u00e7\u00e3o que impacta desde sempre \u201cas vidas n\u00e3o humanas\u201d, entoar o C\u00e2ntico das Criaturas se faz mais urgente do que nunca. O que temos hoje \u00e9 a terra cimentada para o funcionamento das cidades, que servem ao fluxo desenfreado do ser humano aut\u00f4mato, ou da propaga\u00e7\u00e3o do pasto para a produ\u00e7\u00e3o de gado ou de soja em larga escala. A biodiversidade se resume \u00e0 monocultura para faturar. O antropocentrismo anula a centralidade na comunidade de vida, de que somos parte, querendo ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>No contexto contempor\u00e2neo, vivemos tamb\u00e9m um crescente de regimes autorit\u00e1rios em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo e como tend\u00eancias e experi\u00eancias no Brasil, regradas de onda de \u00f3dio, louvor \u00e0s armas, \u00e0 viol\u00eancia social e estatal diante do outro, atitudes expl\u00edcitas de racismos, antissemitismo, xenofobismo, homofobismos e machismos. Ao mesmo tempo que se propaga uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a que persegue negros e residentes de comunidades perif\u00e9ricas, fac\u00e7\u00f5es criminosas e de mil\u00edcias, ocupam e sequestram a liberdade e a dignidade dessas pessoas.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 preciso interpretar as correntes ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas, que formam cora\u00e7\u00f5es e mentes, muitas vezes, utilizando dos espa\u00e7os e express\u00f5es religiosas, e apresentar formas de promover e mobilizar as pessoas para o projeto pol\u00edtico da paz \u2013 como possibilidade concreta de uma nova forma de ser e relacionar-se superando estilos, formas e ideologias intolerantes, sectaristas, violentas, b\u00e9licas, ultraconservadoras e criminosas.<\/p>\n<p>Por isso, canta Francisco, pois a M\u00e3e Terra tem saudades de ti, e teus irm\u00e3os esperam as mudan\u00e7as para que o futuro n\u00e3o seja semeado pelo descaso, explora\u00e7\u00e3o, viola\u00e7\u00f5es tantas e de morte.<\/p>\n<p>Frei Marx Rodrigues dos Reis, diretor-secret\u00e1rio do Sefras \u2013 A\u00e7\u00e3o Social Franciscana<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ano de 2025, comemoramos 800 anos dessa poesia revolucion\u00e1ria que apresentou \u00e0 hist\u00f3ria um novo paradigma n\u00e3o compreendido em sua \u00e9poca e que ainda traz desafios para a sociedade contempor\u00e2nea. 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