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{"id":482,"date":"2015-02-03T12:59:13","date_gmt":"2015-02-03T12:59:13","guid":{"rendered":"http:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/?p=482"},"modified":"2015-02-03T13:00:14","modified_gmt":"2015-02-03T13:00:14","slug":"sobre-a-leveza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/?p=482","title":{"rendered":"Sobre a leveza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/img12.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-483 alignleft\" src=\"http:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/img12.jpg\" alt=\"img12\" width=\"270\" height=\"218\" \/><\/a>A primeira das seis propostas que Italo Calvino faz para o pr\u00f3ximo mil\u00eanio (este que estamos vivendo) \u00e9 a reconquista da leveza. Se tudo no tempo parece empurrar-nos com ilimitada gravidade para baixo, temos de entender, ent\u00e3o, a leveza como o ato de contrariar esse peso. De fato, somos chamados a \u201caliviar\u201d a espessura de tudo aquilo que obscurece o texto do mundo e nos obscurece. A leveza \u00e9 uma esp\u00e9cie de pacto a estabelecer com a transpar\u00eancia. E, progressivamente, dever\u00e1 tornar-se um estilo, uma dic\u00e7\u00e3o, um modo esperan\u00e7oso de habitar a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Calvino aprendemos duas coisas importantes sobre a leveza: a primeira de todas \u00e9 que ela nos pede uma arte de resist\u00eancia, pois s\u00f3 reconquistamos a leveza a custo de uma paciente luta (a maior parte das vezes conosco mesmo); a segunda \u00e9 a necessidade de ativarmos a nossa capacidade de desloca\u00e7\u00e3o (na verdade, s\u00f3 um olhar peregrino possui a agilidade espiritual para n\u00e3o se deixar sequestrar pelo des\u00e2nimo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fixemo-nos na primeira: uma atitude de resist\u00eancia. A leveza convoca-nos para a redescoberta das fontes profundas e adormecidas do nosso Ser e da linguagem. Num mundo de ru\u00eddo, de mensagens que se atropelam, de imagens que se devoram (e nos devoram) de t\u00e3o repetidas e sobrepostas h\u00e1 que combater a banaliza\u00e7\u00e3o. Mergulhados num excesso de sinais, nem nos damos bem conta da pobreza simb\u00f3lica com que constru\u00edmos, dia a dia, a nossa vida. Tornamo-nos mais consumidores, que criadores. A nossa a\u00e7\u00e3o confunde-se com um automatismo que renuncia \u00e0 voca\u00e7\u00e3o que o gesto, a palavra ou o sil\u00eancio t\u00eam de impregnar o mundo de sentido. Precisamos de leveza, ent\u00e3o. Isto \u00e9, de exatid\u00e3o. Sim, n\u00e3o se pense que a leveza \u00e9 simplesmente uma forma mais r\u00e1pida de conduzir a realidade, pois ela nada tem de rapidez ou de superficialidade. Com raz\u00e3o, Calvino cita um verso de Paul Val\u00e9ry: \u00ab\u00c9 preciso ser leve como o p\u00e1ssaro, e n\u00e3o como a pluma\u00bb. \u00abLeve como o p\u00e1ssaro\u00bb, quer dizer, aut\u00eantico, preciso, consistente. A leveza n\u00e3o tem a ver com plumas, mas com a aprendizagem do que \u00e9 voar, do que \u00e9 ascender, do que \u00e9 desprender-se para ser. A leveza \u00e9 uma escolha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda tarefa passa pela sabedoria de n\u00e3o ficar aprisionado a um modo \u00fanico de olhar a realidade. \u00cdtalo Calvino explica-a deste modo: \u00abCada vez que o reino humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que [\u2026] eu devia voar para outro espa\u00e7o. N\u00e3o se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observa\u00e7\u00e3o, que preciso considerar o mundo sob uma outra \u00f3tica, outra l\u00f3gica, outros meios de conhecimento e controle\u00bb. A leveza desafia-nos n\u00e3o a mudar de vida ou a romper com aquilo que estruturalmente somos. Pelo contr\u00e1rio, ela sup\u00f5e uma aceita\u00e7\u00e3o. Mas incita-nos incessantemente a olhar a realidade quotidiana com olhos novos. Escrevia Saramago na conclus\u00e3o do seu livro \u201cViagem a Portugal\u201d: \u00abQuando o viajante se sentou na areia da praia e disse: \u201cN\u00e3o h\u00e1 mais que ver\u201d, sabia que n\u00e3o era assim. O fim duma viagem \u00e9 apenas o come\u00e7o doutra. \u00c9 preciso ver o que n\u00e3o foi visto, ver outra vez o que se viu j\u00e1, ver na primavera o que se vira no ver\u00e3o, ver de dia o que se viu de noite\u2026 \u00c9 preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para tra\u00e7ar caminhos novos ao lado deles. \u00c9 preciso recome\u00e7ar a viagem\u2026\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* Por Pe. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Jos\u00e9-Tolentino-Mendon\u00e7a.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\" size-medium wp-image-484 alignleft\" src=\"http:\/\/franciscanasalcantarinas.org.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Jos\u00e9-Tolentino-Mendon\u00e7a.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a\" width=\"140\" height=\"180\" \/><\/a>Sacerdote Jesuita<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ensa\u00edsta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poeta e Te\u00f3logo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escritor em Portugal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira das seis propostas que Italo Calvino faz para o pr\u00f3ximo mil\u00eanio (este que estamos vivendo) \u00e9 a reconquista da leveza. 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